Saturday, December 28, 2013

Canção da Estilística


Versinhos sem pretensão artística
fi-los p’ra meu próprio deleite
em momentos de estiagem
uma homenagem à Estilística
mas talvez a outro aproveite
lembrar as Figuras de Linguagem.

                                I (de palavras)
A Metáfora é Pelé, famosa, compreendida e citada;
e a Metonímia, irmã menor, sonho doce da petizada.
Dentro dela a Sinédoque, que aprendi lendo Camões,
E a cristalizada Catacrese, céu da boca dos sermões.

Antonomásia é referenciação; esta aprendi
com o Poeta dos Escravos, escardilho
não que fosse escravo o poeta, anadi,
mas é já esta uma Diáfora, trocadilho.

II (de sintaxe)
Atenção requerem as inversões:
O Hipérbato atípicas as construções
torna, uma inversão é, sobretudo;
Em tudo, Anástrofe é semelhante
Fazendo só no sintagma contudo,
o que a outra faz nas orações.

O Pleonasmo, esse quando virtuoso,
o período, torna-o prazeroso
de ler, sem tornar em absoluto
termo sem função, como o Anacoluto
ele, que quebra a lógica da leitura,
faz do texto uma aventura.

Anadiplose, também pleonástica,
traz à leitura beleza plástica:
bela a palavra, bela a estrutura
bela a frase, bela tessitura.

Na Elipse pouco é maravilha:
o óbvio não se expressa
pouco tudo que brilha
leito estreito redondilha.

(Mas se a Elipse tiver a fleugma
de omitir só depois de expressar,
então temos o caso particular
e (...) torna-se Zeugma)

Se duas frases são conectas
(...) dispensam o conector
a resposta vem provecta:
é Assíndeto sim senhor!

Já se a sequência o repete
e seu abuso é uma festa
e usa e abusa e vem o pivete
o Polissíndeto se manifesta.

Quando o texto é um marasmo
não tem colorido nem som
não tem um desenho simétrico
Tasca logo um Quiasmo
com som e cor, com cor e som
e o texto vibra, elétrico.

Epizeuxe não é uma dona, não
também é figura de repetição
café com pão café com pão
café com pão bolacha não.

Ah, mas se uma dona ela fosse
Ah, mas se a pele era doce,
Ah, para Anáfora se partiria
(tampouco é lugar que existia).

Hipálage é minha predileta
dá à palavra atribuição indevida
é como dizer que a bicicleta
é magra, saudável e atrevida.

Agora Silepse todo mundo quis
sem querer, mas aí não vale
o recurso é culto, assinale
a gente era obrigado a ser feliz.

                                III (de pensamento)

Símile é a própria comparação
como raio que corta céu claro
coloca imagens em relação
transfere a outro o traço raro.


É muito divertido o Paradoxo
pois é lógica nossa loucura
faz liberal o pensamento ortodoxo
co’as Antíteses e Oxímoros que procura:
e se quem procura acha, entendo,
quem acha vive se perdendo.

A Hipérbole é um exagero
maior que o tamanho do universo
não é delírio, é um tempero
que o poeta apimenta seu verso.

Da Gradação pouco há a dizer,
vapor que aglomera, nubla e faz chover
o mesmo com Eufemismo,
onde pelados tornam-se nudismo.

O Disfemismo ao contrário, dispensa
ao objeto a possível maior ofensa,
mas fá-lo de maneira clara e aberta
e o ofendido ouve a coisa certa.

Antífrase é sarcasmo, ironia
também aqui há ofensa
como Rodrigues diria,
os excelentes rapazes da imprensa.

Os Lítotes não são difíceis
é só dizer o que quer negando
o que não quer, plausíveis
os sentidos só quando.

Prosopopéia é preciso vê-la
é perder o senso na prosa
e falar com estrela,
com bicho, com rio, com rosa.

Enálage é sofisticada
de tempo verbal a muda
trouxera eu mais explicada
ofenderia a atenção aguda.

Não direi que conheço
a Preterição, desde o começo
a negação que revela
a afirmação com sua vela.

Sinestesia é uma viagem
que afaga os sentidos
com verde e úmida aragem,
ou queima com rubra estiagem.

                                IV (fônicas)
A sonora repetição
rolando a rua de terra
da consoante é Aliteração
ferido ferro ferra.

Sua prima, a Assonância
qual pau de varal no luau
traz sonora constância
do som repetido da vogal.

Sendo assunto complexo
Paronomásia requer atenção
para seu nexo convexo
não se perder na contramão:
os termos soam tão bem
divergem os sentidos porém.
                                                          
Com o Paralelismo encerramos
esta interminável digressão
(1) sintático, (2) rítmico  e (3) semântico
os tipos em que classificamos
uma simétrica disposição
como Pacífico e Atlântico
como lindo par de ramos.

(1) Não só do poema nos cansamos
como tampouco foi romântico.
(2) Se estivesse entre os eleitos,
se prezasse a economia,
se visasse a amante...
(3) Mas não. E ainda dois defeitos:
alonga-se em demasia
e parece arrogante.

Referência: Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. Azeredo, José Carlos de. São Paulo, Publifolha, 2012.

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